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As cidades onde os vizinhos são chamados a combater o fogo

No Brasil, apenas 11% dos municípios têm Corpo de Bombeiros. Nos demais, improvisação e solidariedade ajudam a evitar tragédias.

Com baldes e mangueiras, vizinhos tentam apagar o incêndio em uma casa por duas horas. Um motorista de ônibus agoniza, atravessado por uma barra de ferro, após sofrer um acidente na estrada. Com medo de explosão e sem equipamento adequado, guardas municipais evitam se aproximar de um carro capotado em chamas, e não sabem dizer se o motorista ainda estava vivo antes de seu corpo ser carbonizado. O que falta em todas estas trágicas cenas?

Uma unidade do Corpo de Bombeiros, existente em apenas 11% das cidades brasileiras, segundo estudo feito, com dados de 2009, pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), a pedido do governo federal. Número que o país conheceu depois da tragédia na boate Kiss, em Santa Maria (RS), que completa um mês na quarta-feira.

O percentual esconde a desigualdade: enquanto no Rio 53,3% dos municípios têm Corpo de Bombeiros, em Tocantins somente 3,6% são contemplados com o serviço. Se no país há cerca de 70 mil bombeiros (0,4 por mil habitantes), os EUA têm 344 mil bombeiros (1,5 para cada mil cidadãos). Fora os voluntários.

O tempo de resposta dos bombeiros em muitas cidades atendidas por municípios vizinhos ultrapassa uma hora, quando o recomendado pela Liga Nacional dos Corpos de Bombeiros Militares do Brasil (Ligabom) é que os profissionais cheguem ao local da emergência entre cinco e sete minutos após o chamado. Nas cidades sem bombeiros, o socorro muitas vezes chega tarde demais. Ou não chega.

– É preciso que o governo olhe isso. As pessoas estão morrendo por falta de socorro – diz o comandante-geral bombeiro Carlos Eduardo Casanova, presidente da Ligabom.

A Constituição determina que cada estado estruture seu Corpo de Bombeiros. Apesar de serem militares e “forças auxiliares do Exército”, e de seu trabalho estar relacionado às atribuições da Secretaria Nacional de Defesa Civil, não há no governo federal uma instituição responsável por regular sua organização nacionalmente. Para Casanova, a existência de um código nacional é imprescindível.

Nos estados, normas para a distribuição do efetivo dos Corpos de Bombeiros praticamente não existem. Especialistas em segurança e porta-vozes de Exército, Bombeiros e Defesa Civil dizem que as cidades atendidas são avaliadas por suas características geográficas, populacionais e econômicas, sem padrão fixo. Os Bombeiros do Rio reforçam: a divisão das áreas operacionais de cada unidade não segue limites geopolíticos; critérios como o tamanho da população, facilidade de acesso e atividades desenvolvidas são considerados.

O grande problema, aponta Casanova, é que aos bombeiros são necessários recursos. Pelas suas contas, um caminhão básico de combate a incêndio em áreas urbanas custa R$ 450 mil; uma ambulância equipada, entre R$ 150 mil e R$ 200 mil. Equipar cada bombeiro custa R$ 10 mil.

O engenheiro especializado em segurança contra incêndio José Carlos Tomina, coordenador do projeto Brasil sem Chamas, alerta para as dificuldades das cidades que não contam com bombeiros. Em 2012, lei federal passou a obrigar os municípios a estruturar equipes de Defesa Civil. Mas muitos têm equipes insuficientes ou inexistentes.

Quissamã faz parte da Bacia de Campos, responsável por mais de 80% da produção de petróleo no Brasil. Por ter receber royalties, com apenas 20 mil habitantes é a nona cidade mais rica do país, segundo o IBGE. Seu PIB per capita é de primeiríssimo mundo: R$ 157.770 – a média brasileira é de R$ 19.766. É limpa, tem ciclovias, prédios históricos bem conservados e estradas, em grande parte, sem buracos. Segundo a prefeitura, a Petrobras tem base em São Miguel do Furado, e a responsabilidade pela prevenção e combate a possíveis acidentes no local é da empresa. Mas, quando há emergência, descobre-se que falta o básico: uma unidade do Corpo de Bombeiros.

O vice-prefeito Nilton Pinto (PR), há um mês no cargo, compara Quissamã a Santa Maria, onde o incêndio na boate matou 239 pessoas.

– Se a gente tivesse um espaço que comportasse 1,5 mil pessoas, estando os bombeiros em Macaé, iria morrer todo mundo – lamenta.

A secretária de Governo, Ana Alice Barcelos, concorda com a necessidade de um Corpo de Bombeiros, apesar de ressalvar que, por ser pequena, Quissamã não tem muita demanda. Quando há um incidente, ela admite: tudo é meio improvisado. Os vizinhos ajudam, um caminhão-pipa é alugado e seja o que Deus quiser.

No apartamento de Renata da Penha Santos, um curto-circuito fez seu sofá pegar fogo. Vizinhos com baldes demoraram mais de uma hora para apagar o fogo. A Guarda Municipal chegou 40 minutos depois. Já os bombeiros demoraram duas horas. O teto da casa ficou preto, uma das paredes tem rachaduras e parece estar condenada. Renata, o marido e dois filhos continuam lá.

– Se tivesse bombeiro aqui, seria rapidinho. Não teria ficado desse jeito – diz Renata.

Em Taboão da Serra (SP), na madrugada do Dia dos Pais de 2011, um incêndio queimou quase tudo que o comerciante Romildo Jesus, o Baiano, dono de um ferro-velho, tinha no galpão. Ainda hoje, Romildo lamenta que o Corpo de Bombeiros não tenha sido mais rápido:

– Quando cheguei aqui, e eu moro em São Paulo, os bombeiros estavam estacionando o caminhão. Não tinha mais o que salvar. O fogo estava indo para a madeireira do vizinho.

Depois do fogo controlado, a mulher dele, Tatiane, conta que foi se queixar da demora na chegada da viatura, e só então ficou sabendo que os bombeiros haviam vindo de longe.

– Eles demoraram quase uma hora para chegar porque eram da Casa Verde, na Zona Norte de São Paulo, muito longe daqui – diz Tatiane.

A distância entre Casa Verde e o ferro-velho é de cerca de 40 quilômetros.

Com 245 mil habitantes, Taboão da Serra é um dos cerca de 500 municípios paulistas que não têm Corpo de Bombeiros. O Sindicato dos Bombeiros Civis do Estado de São Paulo informou que somente 141 das 645 cidades do estado têm um posto da corporação. O GLOBO pediu aos Bombeiros de São Paulo a lista de municípios que não têm base da corporação, mas não teve resposta.

A prefeitura informou que as negociações com o governo estadual para a liberação de verba e instalação de um posto dos bombeiros começaram em 2009. Naquele ano, R$ 400 mil haviam sido reservados no orçamento do estado para a obra. Mas a prefeitura demorou para resolver a burocracia e perdeu a verba. Neste ano, uma emenda parlamentar destina R$ 1 milhão à construção. A prefeitura informou quer saber do governo se a emenda será atendida.

Em Dois Irmãos, na Região Metropolitana de Porto Alegre, um incêndio em 1996, que deixou duas crianças mortas, motivou a cidade de 29 mil habitantes a investir numa solução que não dependesse do estado.

– Aqui não tem chuva nem tem sol que nos impeça de atender uma ocorrência. Não podemos dizer com certeza, mas, em 15 anos, salvamos muitas vidas – diz, orgulhoso, o agente administrativo Paulo Cezar Gehrke, um dos 43 bombeiros voluntários da cidade.

A guarnição de bombeiros mais próxima de Dois Irmãos ficava em Novo Hamburgo, a 17 quilômetros dali. Um caminhão com 4,5 mil litros de água demorava pelo menos 45 minutos para se deslocar até a cidade.

Durante quase oito anos, os voluntários de Dois Irmãos atuaram sozinhos, mas desde 2004 contam com o apoio de 11 bombeiros da Brigada Militar, que fazem principalmente os plantões diurnos. A escala prevê pelo menos dois voluntários em plantões das 19h às 7h, incluindo fins de semana.

– Às vezes, alguém se afasta devido a problemas familiares, é substituído, mas acaba voltando. Nosso trabalho é apaixonante – diz o presidente da Associação dos Bombeiros Voluntários de Dois Irmãos, Cristiano da Silva.

Hoje, o serviço tem um caminhão-tanque cedido pela prefeitura e mais três carros usados em resgate, além de uma ambulância. Todos os meses, a associação recebe R$ 7 mil da prefeitura e também doações de empresas da região. O grupamentos de Dois Irmãos também atende a cidades vizinhas sem Corpo de Bombeiros, como Morro Reuter e Santa Maria do Herval.

Autor(es): Barbara Marcolini
O Globo – 24/02/2013
Fonte: http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2013/2/24/as-cidades-onde-os-vizinhos-sao-chamados-a-combater-o-fogo